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7 de novembro de 2019
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De volta à Anápolis – Julie Maria

Anápolis

22 de Julho de 2020

Festa de Santa Maria Madalena

+ AMGD + Louvada seja a Sagrada Família de Nazaré + JMJ +

De volta à Cidade de Santa Ana

Testemunho de Julie Maria

É dever da alma guardar os segredos do Rei e que sua vida interior seja um jardim fechado, e que só o Amado possa ter direito de entrar e fazer ali Sua morada. Porém, sem contradizer esta verdade, é dever do pecador que foi resgatado do inferno proclamar a Misericórdia Divina e publicar as maravilhas que Deus fez com sua alma. Por isso, após uma década, desejo recomeçar nosso apostolado em Anápolis, e aproveito este momento para resumir os fatos mais importantes da minha caminhada de fé.

Quando meus avós souberam da minha concepção eles não ficaram felizes, não porque tivessem mentalidade contraceptiva mas porque meus pais ainda não eram casados. Meu pai era Coordenador do Grupo de Jovens em Taguatinga e minha mãe participava de outro grupo, também católico. Foi na verdade um choque para todos e eis que, na celebração do matrimônio dos meus pais, lá estava eu, com 3 meses de nascida. Mas, como geralmente acontece, depois de nascida fui muito amada e mimada por toda a família e não tenho dúvida da intercessão das minhas duas avós para que eu não perdesse minha alma quando o inferno parecia tê-la ganho!

Minha infância foi normal e feliz, não lembro de nenhum momento traumático… Tenho 3 irmãos, dois homens e uma mulher. Íamos a Missa aos Domingos e minha tia foi a professora da Primeira Comunhão, que recebi aos 11 anos na Paróquia São Cristovão, em Porto Velho. Mas estávamos longe de viver a fé em sua plenitude. Meus pais se separaram quando eu tinha 15 anos e seu matrimônio foi declarado nulo pela Santa Igreja. Como a maioria das famílias católicas de hoje vivíamos uma catolicismo torto, cheio de mundanismo e os frutos amargos foram provados na juventude.

Meus pais não sabiam a importância da pureza e da modéstia e entre a academia de dança da minha mãe e a agência de publicidade do meu pai, a vida ia passando com naturalidade, mas sem que se falasse sobre santidade ou vocação. Foi assim que, durante a moradia em Balneário Camboriú, comecei a viver a tragédia da imodéstia, começando a usar o corpo e o cabelo para chamar atenção para mim mesma, tornando-me escrava do exibicionismo, testemunho que já detalhei aqui.

Quando eu estava iniciando o terceiro ano da Faculdade tive que trancar por problemas financeiros e fui viver com minha tia e avó paterna em Taguatinga, Distrito Federal. Foi ali, a poucas quadras, na Paróquia São José que tive meu encontro pessoal com Nosso Senhor na Quaresma de 2000. Não tenho dúvida que minha primeira conversão foi uma graça do Ano Jubilar.

O meu encontro com Nosso Senhor se deu através do livro intitulado “Virgindade”, do Frei e pregador da Casa Pontifícia Raniero Cantalamessa. Meu pai pegou uma caixa de livros que uma amiga ia jogar fora e dando uma olhando neles peguei este livro tão curtinho mas tão contundente. Ali, naquelas páginas, pela primeira vez vi a palavra “vocação” e esta palavra calou tão profundamente na minha alma que me fez entrar em um grande dilema: e se eu não tivesse “vocação” para casar, apesar de estar há 6 anos namorando?… E este dilema me fez decidir fazer uma penitência pois estávamos na Quaresma e meus pais sempre nos incentivaram a fazer alguma. A “penitência” escolhida por mim foi passar uma hora na Capela de São José diariamente! Mal sabia eu que aquela penitência era na verdade o melhor presente que Nosso Senhor estava me dando… ali começou minha amizade com Ele e meu coração cada dia tinha sede de uma entregar maior.

E durante toda a Quaresma naquela Capela do Santíssimo eu só fiz uma coisa: chorar! Chorei tanto que fiquei conhecida como Maria Madalena para as pessoas que iam à Santa Missa diária. E desde então comecei também a participar diariamente da Missa e experimentar esta grande graça.

No meio do turbilhão de dúvidas, anseios e receios Deus enviou um sacerdote muito especial. O Padre Miguel Angel Cea, meu primeiro pai espiritual. Ele era o capelão da Faculdade que cursava e todas as segundas-feiras estava ali, na sua salinha, pronto para acolher quem quisesse mas geralmente era apenas eu… Ele foi quem me preparou para a Crisma, que fiz aos 23 anos e foi ele quem celebrou a Santa Missa que mais me marcou… Em um dos nossos encontros perguntei a ele se na capelinha da Faculdade não havia Santa Missa e disse que sim, que havia, e naquele momento se paramentou e celebrou “só para mim”. Que experiência do amor de Nosso Senhor! Não é esta a experiência que muda a nossa vida? “Ele me amou e se entregou por mim!” (Gal 2,20).

Outro instrumento de Deus no início da minha caminhada foi o Fabián, um antigo amigo da Faculdade. Durante o tempo que fiquei sem cursar e voltei ao Brasil ele teve seu encontro pessoal com Nosso Senhor em Buenos Aires e quando lhe comentei o que estava acontecendo me levou ao padre Antônio Rivero, dos Legionários de Cristo, e a partir do encontro com ele pude viver duas experiências que mudaram a minha vida: a Missão Popular no interior de Córdoba, em outubro de 2000 e o mês de Candidatado para a vida consagrada em 2001, em São Paulo. Os padres Legionários e as Consagradas do Movimento Regnum Christi foram as primeiras testemunhas que me fizeram conhecer a Igreja viva, e o que significava a verdadeira alegria da santidade.

Ver jovens tão alegres, moças tão bonitas e vestidas de modo modesto foi tão diferente que me impactou muito, e aquela semente plantada na Capela do Santíssimo de uma entrega total se aprofundou. Chegou então o momento que discerni que minha vocação era para a consagração, para ser toda de JESUS e o mundo parecia pequeno para pregar o Evangelho pois meu coração era uma brasa que só pensava em como tornar Nosso Senhor conhecido e amado! E assim, com muito sofrimento mas vendo que este era o meu chamado, terminei o longo namoro e a partir de então vi claramente qual seria minha missão: ajudar as famílias. Mas ao mesmo tempo que via claro qual apostolado não via claro nem como nem aonde. E então comecei uma longa busca para encontrar “meu lugar na Igreja”.

Hoje, olhando para trás, vendo tantas e tantas comunidades que tive a graça de conhecer, inclusive sendo hóspedes em tantos Mosteiros, percebo que não faltou o lugar mas faltou maturidade da minha parte, mas isso não me impossibilitava de participar de vários grupos e conhecer muitos carismas e ver a riqueza espiritual da Igreja neles!

Durante este tempo conclui a Faculdade de Relações Internacionais em Buenos Aires e o Mestrado Ciências da Família, pelo Instituto São João Paulo II. Cada vez que conhecia mais me encantava o Magistério da Santa Igreja e me dediquei a estudar especialmente os documentos relacionados com a família e a vocação feminina. Cheguei à conclusão que não temos que “inventar” nada mas sermos ecos de tantos tesouros escondidos, como por exemplo, as Audiências que o Servo de Deus Papa Pio XII deu aos recém casados! O fruto da busca sobre a vocação e a missão da mulher no plano divino foi o e-book que lançamos em 2018: “Reencontrando o caminho da Felicidade Feminina” que pode ser baixado aqui.

Mas foi uma experiência no Natal de 2008, no Mosteiro do Encontro de monjas beneditinas no Paraná, que me fez ver mais claro o carisma que Deus nos confiou: havia uma casal que estava passando por um sério problema conjugal e com suas duas filhas foram acolhidos pela Madre com muito carinho para passar alguns dias ali. Mas as monjas não tinham tempo para ficar com o casal e eu terminei sendo uma acompanhante e assim rezamos juntos, tentando ajudar ao casal.

Naquele Mosteiro vivi a Festa litúrgica da Sagrada Família e no Ofício das Leituras o discurso do Papa Paulo VI me fez vislumbrar a necessidade de outros mosteiros para nossa época, época na qual a família está totalmente desamparada: mosteiros domésticos, mosteiros que tivessem como carisma acolher, formar e ajudar as famílias católicas.

Desde então, estava muito determinada a iniciar uma Comunidade Religiosa que pudesse oferecer este apoio às famílias, mas ao mesmo tempo, não encontrava apoio nenhum para começá-la! Foi neste contexto, em Maio de 2010, que conheci o pai da minha filha, Maria Beatriz, que já havia começado uma pequena fundação cujo carisma era a contemplação. Nos primeiros minutos de conversa vimos que havia um ideal comum e que podíamos unir nossos carismas num só. E foi com esta intenção que começamos nosso diálogo.

Porém, em poucos dias, houve uma mudança de pensamento e, por razões que devem ficar apenas no Sagrado Coração de Jesus, decidimos nos casar em setembro de 2010. Em fevereiro de 2011 já estávamos separados e a consequência da nossa precipitação e imprudência foi a declaração de nulidade do matrimônio, que chegou em minhas mãos no dia da Festa de Santa Ana em 2016. Por nossa imaturidade e orgulho Deus podia nos ter castigado, e seria justo que o fizesse mas em vez disso, em Sua infinita Misericórdia, nos deu uma filha que está chamada a ver a face de Deus para sempre e é imensa causa de alegria para todos nós!

Quando me tornei mãe da Maria, não tive dúvida que minha vida agora era “só para ela”, e por esta razão deixei todo apostolado que até então mantinha como leiga missionária, entre eles o Apostolado Moda e Modéstia, que continua sendo referência para o estudo deste tema. Vivendo sempre perto da minha família sempre tive a ajuda dos meus irmãos e cunhadas e durante esta década nos unimos para educar nossos filhos da melhor maneira que pudéssemos.

Porém, morávamos no norte do país e a heresia da Teologia da Libertação é uma praga que invadiu todas as paróquias e por isso sempre tivemos vontade de viver onde nossa fé pudesse crescer. Foi nesta busca que tentei viver em Anápolis tanto como missionária, em 2009, como em 2014, quando minha filha já tinha 2 anos. Mas por algumas razões vivemos poucos meses e voltamos ao exílio espiritual rondoniense.

Lá, sofrendo o caos litúrgico e as heresias, foi chegando o momento em que eu ensinava uma coisa sobre a fé e minha filha via outra quando íamos à capela, paróquia ou Catedral… até que a situação chegou no limite e, como mãe católica, fui obrigada a sair novamente buscando uma nova terra… uma terra onde existam famílias católicas e Santa Missa dignamente celebrada, para que a consciência da minha filha pudesse ser bem formada e que ela tivesse contato diário com pessoas que tenham a mesma meta: o céu!

]E então, esgotada com aquela situação e determinada, saímos no dia 4 de Dezembro de 2019 de Porto Velho sabendo o que buscávamos, mas sem saber o nosso destino final. Foram 7 meses de busca, 19 cidades e várias famílias visitadas. Neste tempo tivemos a graça de viver a Quaresma e a Páscoa em um lugar muito especial, o Convento do Instituto Verbo Encarnado, no qual se encontra nossa amada prima, a Madre Sponsa! Não temos palavra para agradecer a cada uma das famílias que nos acolheram nesta peregrinação, até chegarmos no dia 12 de Julho de 2020 em Anápolis.

Hoje vemos que nós não tínhamos Anápolis como uma das possíveis cidades mas Deus sim, e aqui nos trouxe! Nosso desejo é, junto com minha filha e meu pai, recomeçar nosso Apostolado pelas Famílias colocando-nos sempre nas mãos de Deus.

Termino este relato com um agradecimento público ao Cardeal Raymond Burke. Na sua estadia em 2017 tive a oportunidade de entregar em mãos o Estatuto da Comunidade para ajudar as famílias e com afeto paternal e pastoral ele nos enviou, por carta, seu apoio e sua benção que compartilho com todos vocês aqui.

Com confiança consagramos nossa família e nosso apostolado nos Corações de Nosso Senhor, Maria Santíssima e São José!

Julie Maria