Manual de Orações em PDF
27 de setembro de 2017
Daniela Gimenez
29 de setembro de 2017
Mostrar tudo

A vocacao da mulher

Papa Pio XII

Discurso à Juventude Feminina de Ação Católica, 24 de abril, 1943 e discurso à Mulheres de Ação Católica, 21 de outubro, 1945

O caráter da vida da mulher e a iniciação da cultura feminina eram inspirados, conforme a mais antiga tradição, pelo seu instinto natural que Deus atribuia como reino próprio de atividade a família, a não ser no caso de por amor de Cristo preferir a virgindade. Retirada da vida pública e à margem das profissões públicas, a jovem, como flor que cresce guardada e reservada, estava destinada por sua vocação a ser esposa e mãe.

Junto da mãe aprendia os labores femininos, os cuidados e negócio da casa e tomava parte na vigilância dos irmãos e irmãs menores, desenvolvendo assim as forças, o engenho, e instruindo-se na arte e no governo do lar. Manzoni apresenta na figura de Lúcia a mais alta e viva expressão literária desta concepção.

As formas simples e naturais em que a vida do povo se desenvolvia, a íntima e prática educação religiosa, que durante o século XIX tudo animara, o uso de contrair muito cedo o matrimônio, ainda possível naquelas condições sociais e econômicas, a preeminência que a família tinha no movimento do povo, tudo isto e outras circunstâncias mais, que entretanto mudaram radicalmente, constituíam o primeiro alimento e sustentáculo para aquele caráter e forma de cultura da mulher.

Hoje, pelo contrário a antiga figura feminina está em rápida transformação. Podeis ver que a mulher, e sobretudo a jovem, saem de seu retiro e entram em quase todas as profissões, até aqui exclusivo campo de ação e vida do homem.

Desde há bastante tempo vinham-se já manifestando sinais a princípio tímidos e depois cada vez mais vigorosos desta transformação, causados principalmente pelo desenvolvimento da indústria no progresso moderno. Mas desde alguns anos a falange feminina, qual torrente que, rompidos os diques, vence toda a resistência, parece ter penetrado em todo campo da vida do povo.

E se tal torrente contudo não se difundiu igualmente em todos os sentidos, não é difícil encontrar-se o curso até na mais remota aldeia sertaneja; enquanto no labirinto das grandes cidades, como nas oficinas e nas indústrias, o antigo costume e orientação houve que ceder o passo incondicionalmente ao desenvolvimento moderno.

***

Digamos imediatamente que para nós o problema feminino, tanto em seu complexo, como em cada um de seus múltiplos aspectos particulares, consiste todo na conservação e no incremento da dignidade que a mulher recebeu de Deus. Para nós portanto não é um problema de ordem meramente jurídica ou econômica, pedagógica, ou biológica, política ou demográfica; mas que, embora em sua complexidade, gravita todo em torno da questão: como manter e reforçar aquela dignidade da mulher, maximamente hoje, nas conjeturas em que a Providência nos colocou?

Ver de outro modo o problema, considerá-lo unilateralmente sob qualquer dos aspectos mencionados, seria o mesmo que iludi-lo, sem proveito algum para quem quer que seja, menos ainda para a própria mulher. Separá-lo de Deus, da sábia ordem do Criador, de sua santíssima vontade, é obliterar o ponto essencial da questão, quer dizer a verdadeira dignidade da mulher, dignidade que ela tem somente de Deus e em Deus.

Disto procede que não estão em grau de retamente considerar a questão feminina os sistemas que excluem da vida social Deus e sua lei, e aos preceitos da religião concedem, ao máximo, um humilde lugar na vida privada do homem.

Em que consiste portanto esta dignidade que a mulher tem de Deus? Interrogai a natureza humana, qual o Senhor a formou, elevou, redimiu no sangue de Cristo.

Em sua dignidade de filhos de Deus, o homem e a mulher são absolutamente iguais, como também a respeito do fim último da vida humana, que é a eterna união com Deus na felicidade do céu. É glória imortal da Igreja ter colocado em luz e em honra esta verdade e haver livrado a mulher de uma degradante servidão contrária à natureza.

Mas o homem e a mulher não podem manter e aperfeiçoar esta sua igual dignidade, senão respeitando e colocando em ato as qualidades particulares, que a natureza lhes concedeu a um e a outra, qualidades físicas e espirituais indestrutíveis, das quais não é possível mudar a ordem, sem que a própria natureza sempre, novamente, a restabeleça.

Estes caracteres peculiares, que distinguem os dois sexos, mostram-se com tanta clareza aos olhos de todos, que somente uma obstinada cegueira ou um doutrinarismo, não menos funesto que utópico, poderia nas ordens sociais desconhecer ou quase ignorar-lhes o valor.

Ainda mais. Os dois sexos, por sua própria qualidade particular, são ordenados, um para o outro de tal modo que esta mútua coordenação exercita seu influxo em todas as múltiplas manifestações da vida humana social. Nós nos limitaremos aqui a recordar dois, por suas especiais importâncias: o estado matrimonial e o celibato voluntário, segundo o conselho evangélico.

O fruto de uma verdadeira comunidade conjugal compreende não somente os filhos, quando Deus os concede aos esposos, mas também os benefícios materiais e espirituais que a vida de família oferece ao gênero humano. Toda a civilização em cada um de seus ramos, os povos e a sociedade dos povos, e a própria Igreja, em uma palavra, todos os verdadeiros bens da humanidade ressentem os felizes eleitos, onde esta vida conjugal floresce na ordem, onde a juventude se habitua a contemplá-la, a honrá-la e a amá-la como um santo ideal.

Onde, entretanto, ambos os sexos não são, reciprocamente, senão objeto de egoísmo e de cupidez; onde não cooperam de mútuo acordo para o serviço da humanidade segundo os desígnios de Deus e da natureza: onde a juventude, descurando suas responsabilidades, superficial e frívola em seu espírito e em sua conduta, torna-se moral e fisicamente inapta para a vida santa do matrimônio; aí os bens comuns da sociedade humana, na ordem espiritual e temporal, se encontram gravemente comprometidos, e a própria Igreja de Deus treme, não por sua existência – ela tem a promessa divina! – mas pelo maior fruto de sua missão entre os homens.

Mas eis que, desde vinte séculos, em cada geração, milhares e milhares de homens e mulheres, entre os melhores, renunciam livremente, para seguir o conselho de Cristo, a uma própria família, os santos deveres e sagrados direitos da vida matrimonial. O bem comum dos povos e da Igreja, fica talvez correndo perigo?

Pelo contrário! estes espíritos generosos reconhecem a associação dos dois sexos no matrimônio como um elevado bem. Mas se se afastam da vida ordinária, da estrada batida, estes, longe de desertarem, consagram-se ao serviço da humanidade, com completo desapego de si mesmos e de seus próprios interesses, em uma ação incomparavelmente mais ampla, total, universal.

Olhai aqueles homens e aquelas mulheres: contemplá-los-eis na oração e na penitência: dedicados na instrução e educação da juventude e dos ignorantes: inclinados na cabeceira dos doentes e dos agonizantes; de coração aberto a todas as misérias e a todas as debilidades, para reabilitar, para confortar, para aliviar, para a todos santificar.

Quando pensamos nas jovens e nas mulheres que renunciam voluntariamente ao matrimônio, para consagrarem-se a uma vida mais elevada de contemplação, de sacrifícios e de caridade, logo sobe aos lábios uma luminosa palavra: a vocação! É a única palavra que exprime tão elevado sentimento.

Esta vocação, esta chamada de amor, faz-se ouvir de modos mais diversos, como infinitamente várias são as modulações da voz divina: convites irresistíveis, inspirações afetuosamente solicitantes, suaves impulsos. Mas também a jovem cristã, tendo permanecido a contragosto sem núpcias, que, porém, firmementre crê na Providência de um Pai Celeste, reconhece nas vicissitudes da vida a voz do Mestre: “Magister adest et vocat te“: O Mestre está aqui e te chama! Ela responde; ela renuncia ao caro sonho de sua adolescência e de sua juventude: ter um companheiro fiel na vida, constituir uma família e na impossibilidade do matrimônio discerne sua vocação, então, com o coração partido, mas submisso, ela também se dá totalmente às mais nobres e multiformes obras boas.

Em um como em outro estado o dever da mulher aparece nitidamente traçado pelos lineamentos, pelas atitudes, pelas faculdades peculiares ao seu sexo. Colabora com o homem, mas no modo que lhe é próprio, segundo sua natural tendência. Ora o ofício da mulher, sua maneira, sua inclinação inata, é a maternidade. Toda mulher é destinada para ser mãe; mãe no sentido físico da palavra, ou em um significado mais espiritual e elevado, mas não menos real.

A este fim o Criador ordenou todo o ser próprio da mulher, seu organismo, mas também seu espírito e sobremodo sua especial sensibilidade. De  modo que a mulher, verdadeiramente tal, não pode de outro modo ver nem compreender a fundo todos os problemas da vida humana, senão com relação à família. Por isto o sentido agudo de sua dignidade a coloca em apreensão cada vez que a ordem social ou política ameaça prejudicar sua missão materna, em favor da família.

Tais são hoje, infelizmente, as condições sociais e políticas; elas poderiam se tornar ainda mais incertas para a santidade do lar doméstico e portanto para a dignidade da mulher. A vossa honra soou, mulheres e jovens católicas: a vida pública tem necessidade de vós: a cada uma de vós, pode-se dizer: “Tua res agitur“.

Que desde muito tempo os acontecimentos públicos tenham-se desenvolvido de modo não favorável ao bem real da família e da mulher, é uma fato inegável. E para a mulher, voltam-se vários movimentos políticos, para ganhá-la à sua causa. Alguns sistemas totalitários colocam diante de seus olhos magníficas promessas; igualdade de direitos com os homens, proteção das gestantes e das pasturientes, cozinha e outros serviços comuns que a libertarão do peso das obrigações domésticas, jardins públicos para a infância e outros institutos, mantidos e administrados pelo Estado e pelos próprios filhos, escolas gratuítas, assistência em caso de doenças.

Não queremos negar as vantagens que podem ser tiradas de uma e de outra destas providências sociais, se aplicadas nos devidos modos. Nós mesmos, em outras ocasiões, observamos que à mulher é devida, pelo mesmo trabalho e à paridade de rendimento, a mesma remuneração que ao homem é dada.

Permanece, porém o ponto essencial da questão, a que já acenamos: a condição da mulher, com isto se tornou melhor? A igualdade de direitos com o homem, trazendo o abandono da casa onde ela era Rainha, sujeita a mulher ao mesmo peso e tempo de trabalho. Desprestigiou-se a sua verdadeira dignidade e o sólido fundamento de todos seus direitos, quer dizer, o caráter próprio de seu ser feminil e a íntima coordenação dos dois sexos; perdeu-se a vista o fim desejado pelo Criador para o bem da sociedade humana e sobretudo pela família.

Nas concessões feitas à mulher, é fácil de perceber, mais que o respeito de sua dignidade e de sua missão, a mira de promover a potência econômica e militar do Estado totalitário, do qual tudo deve inexoralmente ser subordinado.

De outra parte, pode talvez a mulher esperar o seu bem-estar verdadeiro de um regime de predominante capitalismo?

Nós não temos necessidade de descrever-vos agora as conseqüências econômicas e social que deste derivam. Vós conheceis os sinais característicos e trazeis vós mesmas o peso; excessivo aglomerar-se das populações nas cidades, progressivo e invasor aumento das grandes empresas, difíceis e precárias condições das demais indústrias, especialmente do artesanato e também ainda mais da agricultura, extensão inquietante da desocupação.

Recolocar o mais possível em honra a missão da mulher e da mãe, no lar: tal é a palavra que de tantas partes de levanta, como um grito de alarma, como se o mundo se despertasse quase aterrado pelos frutos de um progresso material e técnico, do qual se mostrava antes tão orgulhoso.

Observemos a realidade das coisas.

Eis a mulher que, para aumentar o salário do marido, vai ela também trabalhar na fábrica, deixando durante sua ausência a casa no abandono, e esta, talvez já suja e pequena, torna-se também mais miserável pela falta de cuidado; os membros da família trabalham cada um separadamente, nos quatro ângulos da cidade e em horas diversas: quase nunca se encontram juntos, nem para o jantar, nem para o repouso depois das fadigas do dia, ainda menos para as orações em comum. Que permanece da vida da família? e quais os atrativos que podem ser oferecidos aos filhos?

A estas penosas conseqüências da falta da mulher e da mãe no lar, ajunta-se outra ainda mais deplorável: ela diz respeito à educação, sobretudo da jovem e sua preparação para a vida real. Habituada a ver a mãe sempre fora de casa e a própria casa tão triste no seu abandono, ela será incapaz de encontrar aí qualquer fascínio, não provará o mínimo gosto pelas austeras ocupações domésticas, não saberá compreender a nobreza e a beleza das mesmas, nem desejará um dia dedicar-se a isso, como esposa e mãe.

Isto é real em todos os graus sociais, em todas as condições de vida. A filha da mulher mundana, que vê todo o governo da casa deixado nas mãos de pessoas estranhas e a mãe ocupada em ocupações frívolas, em fúteis divertimentos, seguirá seu exemplo, quererá emancipar-se o quanto antes, e segundo uma bem triste expressão “viver a sua vida”. Como poderia ela conceber o desejo de ser tornar um dia uma verdadeira “domina”, isto é, uma senhora da casa em uma família feliz, próspera e digna?

Quanto às classes trabalhadoras, obrigadas a ganhar o pão cotidiano, a mulher, se bem refletisse, compreenderia talvez como não poucas vezes o suplemento de ganho, que ela obtém trabalhando fora de casa, é facilmente devorado pelas despesas ou também pelos desperdícios ruinosos para a economia familiar.

A filha, que vai também ela a trabalhar em uma fábrica, em uma empresa ou em um escritório, perturbada pelo modo agitado em meio ao qual vive, cegada pelo ouropel do falso luxo, desejosa de tristes prazeres, que distraem mas não saciam nem repousam, naquelas salas de “revistas” ou de danças, que pululam em todo lugar, muitas vezes com intentos de propaganda de parte e corrompem a juventude, tornando-se “mulher de classe”, desprezadora das velhas normas “oitocentescas” de vida, como poderia ela não encontrar a modesta moradia doméstica inóspida a mais tetra daquilo que na realidade é?

Para torná-la agradável, para desejar estabelecer um dia a dela própria, deveria saber compensar a impressão natural com a seriedade da vida intelectual e moral, com o vigor da educação religiosa e do ideal sobrenatural. Mas qual formação religiosa recebeu ela em tais condições?

E não é tudo. Quando o transcorrer dos anos, sua mãe, envelhecida pelo tempo, enfraquecida e desgastada pelas fadigas superiores às suas forças, pelas lágrimas, pelas angústias, a verá voltar à casa à tarde, em horas talvez bem avançadas, longe de ter nela um auxílio, um sustentáculo, deverá ela mesma cumprir junto da filha incapaz e não habituada às obras femininas e domésticas, todas as obrigações de uma serva.

Nem mais feliz será a sorte do pai, quando a idade avançada, as doenças, os achaques, as desocupações obrigarão a depender para o seu mesquinho sustento da boa ou má vontade dos filhos. A augusta, a santa autoridade do pai e da mãe, ei-las descoroadas de sua majestade.

Diante das teorias e dos métodos que, por diferentes caminhos, arrancam a mulher de sua missão, e com a lisonja de uma emancipação desenfreada, ou na realidade de uma miséria sem esperança, despojos de sua dignidade pessoal, de sua dignidade de mulher, nós ouvimos o grito da apreensão que invoca, o mais possível, sua presença ativa no lar.

A mulher é realmente retida fora de casa, não somente por sua proclamada emancipação, mas muitas vezes também pelas necessidades da vida, do contínuo peso do pão cotidiano. Em vão portanto pregar-se-á o seu retorno ao lar, até que durem as condições que não raramente a constringem a permanecer dele distante. E assim se manifesta o primeiro aspecto da nossa missão na vida social e política, que se abre diante de vós.

A vossa entrada nessa vida pública aconteceu repentinamente, por efeito dos acontecimentos sociais nos quais, sem o esperar talvez, pouco importa, sois chamadas a tomar parte; deixareis a outras talvez, aquelas que se fazem promotoras ou cúmplices da ruína do lar, o monopólio da organização social, da qual a família é o elemento precípuo em sua unidade econômica, jurídica, espiritual e moral?

A sorte da família, a sorte da convivência humana, estão em jogo; estão em vossas mãos, “tua res agitur!” Toda mulher portanto, sem exceção, tem o dever, o estrito dever de consciência, de não permanecer ausente, de entrar em ação (nas formas e nos modos condizentes ás condições de cada qual), para conter a corrente que ameaça o lar, para combater as doutrinas que lhe corroem os fundamentos, para preparar, organizar e cumprir sua restauração.

Por este motivo impelente para a mulher católica de entrar na vida, que hoje se abre à sua operosidade, ajunta-se outro; sua dignidade de mulher. Ela tem de concorrer com o homem para o bem da civilização, na qual está em dignidade igual a ele. Cada um dos dois sexos tem o dever de tomar a parte que lhe cabe segundo sua natureza, seus caracteres, suas atitudes físicas, intelectuais e morais.

Ambos os sexos têm o dever e o direito de cooperar para o bem total da sociedade, da pátria, mas está claro que, se o homem é por temperamento mais levado a tratar dos negócios externos, os negócios públicos, a mulher tem, geralmente falando, maior perspicácia, tato mais fino para conhecer e resolver os problemas delicados da vida doméstica e familiar, base de toda a vida social, o que não tolhe que algumas saibam realmente dar demonstração de grande perícia também no campo da atividade pública.

Tudo isto é questão não tanto de atribuições distintas, quanto de modo de julgar e de descer a aplicações concretas e práticas. Tomemos o caso dos direitos civis: eles, no presente, são para ambos os sexos. Mas com quanto maior discernimento e eficácia serão utilizados, se o homem e a mulher integrarem-se mutuamente!

A sensibilidade e a fineza próprias da mulher, que poderiam arrastá-la no sentido de suas impressões e arriscaria assim trazer prejuízo à clareza e à amplidão de vistas, são pelo contrário, preciosos auxílios para colocar em luz as exigências, as aspirações, os perigos de ordem doméstica, assistencial e religiosa.

A atividade feminina  desenvolve-se em grande parte nos trabalhos e nas ocupações da vida doméstica, que contribuem, mais e melhor daquilo que geralmente se poderia pensar, para os verdadeiros interesses da comunidade social; mas estes interesses requerem ainda um esquadrão de mulheres, que disponham de maior tempo para nisto se dedicarem mais direta e totalmente.

Quais poderão portanto ser estas mulheres, senão especialmente (não pretendemos dizer: exclusivamente) aquelas a que aludimos pouco faz, aquelas que imperiosas circunstâncias ditaram a misteriosa “vocação”, aquelas que os acontecimentos destinaram a uma solidão que não estava em seus pensamentos e em suas aspirações, e parecia condená-las a uma vida egoísticamente inútil e sem escopo?

E eis  pelo contrário que hoje sua missão se manifesta múltipla, militante, empenhando todas suas energias e de modo tal que poucas outras, entretidas pelos cuidados da família e da educação dos filhos, ou sujeitas ao santo jugo da regra, estariam igualmente em grau de cumprir.

Até agora algumas daquelas mulheres dedicavam-se com zelo, muitas vezes admirável, às obras da paróquia; outras, de sempre maior visão, consagravam-se a uma operosidade moral e social de grande alcance. Seu número, por efeito da guerra, e das calamidades que se seguiram, aumentou consideravelmente; muitos homens calorosos caíram na horrível guerra, outros voltaram enfermos; tantas jovens esperaram em vão a vinda de um esposo, o desabrochar de novas vidas, em sua habitação sozinhas: mas ao mesmo tempo as novas necessidades criadas pela estrada da mulher na vida civil e política surgiram pedindo o concurso delas. Nada é senão uma estranha coincidência, ou é preciso ver nisto uma disposição da Divina Proviência?

Assim, vasto é o campo de ação que se oferece hoje à mulher, e pode ser, segundo a atitude e o caráter de cada uma, ou intelectual ou mais praticamente ativo. Estudar e expor o posto e o cargo da mulher na sociedade, seus direitos e seus deveres, tornar-se educadora e guia das próprias irmãs, endireitar as idéias, dissipar os preconceitos, esclarecer as confusões, explicar e difundir a doutrina da Igreja para destruir mais seguramente o erro, a ilusão e a mentira, para desmascarar mais eficazmente a tática do adversário do dogma e da moral católica: trabalho imenso e de urgente necessidade, sem o qual todo o zelo de apostolado não obteria senão resultados precários. Mas também a ação direta e indispensável, se não se quer que a são doutrina e as sólidas convicções permaneçam, se não absolutamente platônicas, ao menos pobres de efeitos práticos.

Esta parte direta, esta colaboração efetiva na atividade social e política, não altera em nada o caráter próprio da ação normal da mulher. Associada á obra do homem no campo da instituição civil, ela se aplica principalmente nas matérias que exigem tato, delicadeza, instinto materno, mais do que na rigidez administrativa. Quem melhor do que ela pode compreender o que requerem a dignidade da mulher, a integridade e a honra da jovem, a proteção e a educação da criança?

E em todos estes argumentos quantos problemas reclama a atenção e a ação dos governantes e dos legisladores! Somente a mulher saberá, por exemplo, temperar com a bondade, sem detrimento da eficácia, a repreensão da libertinagem; ela só poderá encontrar o caminho para salvar da humilhação e educar na honestidade e na virtude religiosa e civil a infância moralmente abandonada; ela somente poderá tornar frutuosa a obra do Oratório Festivo e da reabilitação dos livros do cárcere ou das jovens decaídas; ela somente fará surgir de seu coração o eco do grito ds mães, às quais um Estado totalitário, de qualquer nome se adorne, quereria roubar a educação dos próprios filhos.

Permanece assim traçado o programa dos deveres da mulher, cujo objeto prático é dúplice: sua preparação e formação para a vida social e política, o desenvolvimento e atuação desta vida social e política no campo privado e público.

Está claro que a obrigação da mulher, assim compreendida, não se improvisa. O instinto materno nela é um instinto humano, não determinado pela natureza até nos particulares de suas aplicações. Ele é dirigido por uma vontade livre, e esta por sua vez é guiada pelo intelecto. Daqui seu valor moral e sua dignidade, mas também sua imperfeição, que tem necessidade de ser compensada e resgatada com a educação.

A educação feminina da jovem, e não raramente da mulher adulta, é portanto uma condição necessária de sua preparação e de sua formação para uma vida digna dela. O ideal seria evidentemente que esta educação pudesse ir remontar até à infância, na intimidade de um lar cristão, sob o influxo da mãe. Não é infelizmente sempre o caso, nem sempre possível.

Todavia, pode-se, pelo menos em parte, suprir a esta falta, procurando a jovem, que por necessidade deve trabalhar fora de casa, uma daquelas ocupações que são de algum modo tirocínio e adestramento para a vida à qual é destinada. A tal escopo tendem também as escolas de economia doméstica, que miram fazer da criança e da jovem de hoje a mulher e a mãe de amanhã.

Quanto dignas de elogios e de encorajamento são tais instituições! São uma das formas nas quais podem largamente exercitar-se e difundir os vossos sentimentos e o vosso zelo materno, e uma das mais louváveis, porque o bem que aí se cumpre e se propaga ao infinito colocando as vossas alunas em grau de fazer a outras, seja em família, seja fora, o bem que vós fizestes a elas mesmas. Que dizer ainda de tantas outras obras com as quais vós vindes em auxílio das mães de família, tanto por sua formação intelectual e religiosa, como nas circunstâncias dolorosas ou difíceis de suas vidas?

Mas a ação social e política muito depende da legislação do Estado e da administração dos comuns. Por isto a ficha eleitoral está nas mãos da mulher católica com um meio importante para cumprir o seu rigoroso dever de consciência, máxime no tempo presente. O Estado e a política têm realmente e mais propriamente o encargo de assegurar à família de cada classe social as condições necessárias a fim de que possam existir e desenvolver-se como unidade econômica, jurídica e moral.

Então a família será verdadeiramente a célula vital de homens, que procuram honestamnete seu bem terreno e terno. Tudo isto bem compreende a mulher verdadeiramente tal. Aquilo que ela, pelo contrário, não compreende, nem pode compreender é que na política se entenda a dominação de uma classe sobre outra, a mira ambiciosa de sempre maior extensão de império econômico nacional, por qualquer motivo venha ele pretendido.

Pois que ela sabe que tal política abre caminho à oculta e clara guerra civil, ao peso sempre crescente das armas e ao constante perigo de guerra; ela conhece por experiência que por todos os modos aquela política danifica a família, que deve pagá-la a caro preço com seus bens e com o seu sangue.

Por isto nenhuma mulher sábia é favorável a uma política de luta de classes ou de guerra. Seu caminho para as urnas eleitorais, é um caminho de paz. Portanto no interesse e para o bem da família, a mulher percorrerá aquele caminho e oporá sempre o seu voto e toda tendência, de qualquer parte venha, de subordinar a egoísticos desejos de domínio a paz interna e externa dos povos.